
Gostava tanto de te ter escrito no peito em sorrisos esboçados tão espontaneamente, de te trazer comigo em cada manhã de inverno que tão docemente se deixava passar por conversas mergulhadas em cafés às três da manhã. Eras céus desenhados pelo mar e borboletas vindas de não sei onde, rosas encarnadas de tanto amar e rouxinóis cansados de tanto me cantar amor aos ouvidos. Eras um pedaço de mim, aquele que eu mais gostava e sonhava nunca perder. Beijavas-me todo o corpo sempre que sorrias e ousavas brincar comigo num jogo quase tão enigmático quanto a Lua.
Mas, um dia, não mais foste primavera e deixaste-me mergulhada em lágrimas choradas em lençóis com o teu doce cheiro a mar mesmo sem lá teres estado. É estranho como tudo parecia tão perfeito no princípio e se transformou neste temido outono sem Lua. O quarto cheira aos cigarros que se acendem e aos fantasmas que me preenchem aos poucos. Soubesses tu o que eu dava para te ter... És-me a vida, o momento. Tenho saudades das noites em que adormecia feliz a amar-te. Agora choro pétalas de malmequer e sinto que já nem alma tenho. Afinal, se a minha alma eras tu, onde está ela agora?