
Ela tinha os cabelos escuros como os céus nas noites de dezembro e era pequenina. Trazia uma doçura de criança no seu sorriso quase perfeito e os seus olhos negros contavam mil e uma histórias aos morcegos de madrugada. Acompanhava-me já há muito e passávamos os dias de verão sempre juntas. Naquele verão, eu não queria rir-me com ela nem tão-pouco passar tempo com alguém senão as paredes que comigo choravam em cada lúgubre anoitecer. Mas ela sempre fora mais forte do que eu e conseguira fazer com que pisasse outro chão senão o do meu quarto e com que sorrisse quase tão discretamente como quando o Sol beija a Lua no inverno. E ela era mesmo isso, uma alegria tão discreta, mas sempre tão bonita. Oh, mas ela também chora. Eu sei que não me diz quando o faz com as estrelas e que prefere fazer-me sorrir do que saber que eu a vejo esboçar uma espécie de sorriso meio-escondido, meio-desfeito. Naqueles dias, assim como em tantos outros, fora ela quem me fizera acreditar que a vida é tão bela quanto os poemas que os rouxinóis cantam e eu adoro. Obrigada por gostares de mim quando eu já nem de mim gosto - dizia-lhe enquanto ela dormia. Talvez não tenha sido o verão mais belo de sempre, mas foi aquele em que aprendi o quão bom é tê-la por perto. Agradeço-lhe por me desenhar os sorrisos mais bonitos e, oh, peço-lhe que me deixe desenhá-los a ela também numa daquelas noites de inverno em que eu sei que precisa mas não me conta. Gosto mais dela que da Lua.