sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Dois corações e mais nada


Estava a chover muito e as ruas começavam a ficar inundadas. Já estava ali sentada havia umas horas sem saber para onde ir e em busca do impossível, talvez. A chuva fazia-se ouvir sempre que batia fortemente nos passeios e as janelas fechavam-se do frio que começava agora a entrar para os lares da cidade. Tinha os óculos postos, os mesmos de sempre, para que não me vissem os olhos tal como eu não consigo ver os deles. Comecei a ouvir uns passos e senti que alguém se aproximara, disse “Olá?” mas não obtive resposta. Eu sabia que estava alguém sentado a meu lado naquele banco desgastado da chuva e da luz do Sol, não sei como, mas sabia. Após uns minutos senti um toque no braço direito e arrepiei-me, era uma mão máscula e terna e era disso mesmo que eu precisava. Soube-me bem, visto que estava a ficar cada vez mais gelada. Voltei a perguntar quem estava ali, mas ninguém me respondeu novamente. Sabia que me devia ir embora, mas havia algo que me puxava para aquele banco, para aquela pessoa... Algo que me impedia de ir onde quer que fosse. Era mais forte do que eu. Era um rapaz, um elegante adolescente de apenas 16 anos, dono de uma beleza imensa. Tinha os olhos da cor da relva do parque, as bochechas rosadinhas e os lábios carnudos e bem encarnados. Eu não o sabia, não o conseguia ver e tinha pena disso. Pedi a Deus com todas as minhas forças que esta deficiência visual me passasse nem que fosse só por um instante, porque eu precisava de o ver. Estiquei a mão até o sentir, brinquei com o seu cabelo e desci até à sua boca, contornei-a com a ponta dos dedos e voltei a poisar a mão no banco. Ele via-me, apenas não me conseguia ouvir nem mesmo comunicar comigo. Senti uma brisa quente, pela primeira vez naquela tarde, e senti-o a aproximar-se. Os seus braços subiram até ao meu pescoço e aí abraçou-me com a maior força do mundo, algo que eu nunca sentira antes. Beijou-me o pescoço, depois a face e deixou-se ficar no meu nariz proporcionando-me curtos beijinhos que eu quase nem sentia mas que pareciam significar muito para ele. Pus as pernas por cima das dele mesmo sem o ver e abraçámo-nos com toda a força. Ele adorava-me com os olhos neste momento, dado que era um dos poucos sentidos que tinha. Parou de chover e eu entreguei-lhe o meu coração, pequeno e molhado, e ele confiou-me o dele a mim também. E, pela primeira vez, percebi que uma boca não serve só para falar, mas também para beijar e para imaginar o que poderia ser dito; que uns ouvidos não só escutam como imaginam as maravilhas que poderiam escutar; e que só uma pequena parte dos olhos tem a função de ver, a outra limita-se a sentir e a sonhar. Eu sou cega e ele é surdo mudo. Assim permanecemos naquele banco até anoitecer, entrelaçados e unidos por algo inquebrável. E eu nunca me sentira tão viva.

16 comentários:

  1. Oh, és um doce!
    E aqui está mais um texto maravilhoso. Fez-me sorrir e até ficar com uma lágrima no canto do olho. Este teu belo texto, tem um toque de especial. Magnifico!

    ResponderEliminar
  2. é sempre bom quando nos sentimos vivas não é?

    ResponderEliminar
  3. Bem como eu disse, irei divulgar pela última vez o meu blog, porque este eu vou apagar, obrigada a quem seguir e quem gostar!

    http://thingshavechangedtheychangeallthetime.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
  4. Sentir que amamos e amar-mos? Será isso bom?? (:

    http://bllmaescritadeumcoracaoviajante.blogspot.pt/
    dá opinião,
    Pensando com Arte.

    (Recebe um sopro no coração de mim, para ti)

    ResponderEliminar
  5. Oh, não tens nada que agradecer querida.

    ResponderEliminar
  6. olá minha querida, acho que escreves muito bem e para ser sincera, demasiado bem para o tipo de blog. coloca a tua página de uma maneira que atraia mais as pessoas a ler-te. quando vi o blog não esperei que escrevesses desta maneira tão única. beijinho grande para ti :)

    ResponderEliminar
  7. R: Obrigada querida, vou tentar arranjar :D

    ResponderEliminar
  8. colocá-lo simples, sem muitas cores, uma letra diferente e mais pequena. até podes arranjar daquelas imagens amorosas de chávenas ou andorinhas e colocar no fundo branco do blog. não gosto muito de imagens no fundo de blogs mas claro, é a minha opinião. beijinho

    ResponderEliminar
  9. sim claro querida, e já sigo há algum tempo :D

    ResponderEliminar
  10. Se está minha querida! Temos de ser fortes :)

    ResponderEliminar
  11. ai este teto fez-me pensar tanto, bela história :)

    ResponderEliminar
  12. Oh que bonito! Adoro estas histórias assim onde o amor vence barreiras :)
    Uns dias melhores, outros piores. Problemas que serão resolvidos..um dia desses! *

    ResponderEliminar
  13. Parabéns! O seu texto está lindo, cheio de sensibilidade e inspiração!

    ResponderEliminar

Escreve aquilo que estiveres a sentir neste momento.