terça-feira, 2 de julho de 2013

A melodia de uma lágrima


Tudo o que se ouvia na cidade era o som do violino que tocava, no quarto que era quase mais vazio que os céus. Tinha os cabelos escuros e compridos e a subtileza com que estes lhe preenchiam os ombros tornavam-na um pedaço belo de jardim. Os seus grossos e enigmáticos lábios - de quem nunca é beijado pelo mar - davam-lhe uma elegância imperfeita que poucos compreendiam. Tocava sem cessar aos pardais há horas, fechava os olhos e, de quando em vez, chorava. Tinha medo de viver, porque viver agora somente a magoava. Sentia os ossos quebrarem-se-lhe sempre que dançava pela sala num suspiro ao implorar pela sua alma de volta. Mas ela não parecia parar de chorar... Tocava mais uma vez e o movimento dos seus braços era quase tão belo como o luar. A dor parecia movê-la e fazer com que ela não parasse de tocar até amanhecer. Não se sentia bem, queria desaparecer para onde os pássaros lhe beijassem os poemas que escrevia e pudesse chorar durante dias a fio. Talvez não fosse apenas uma simples rapariga, talvez fosse um sorriso transformado numa mágoa que parecia terminar só no Inferno. Era, agora, nada mais que um céu sombrio e tenebroso. A pele parecia-lhe mais pálida que  o habitual ao espelho e os seus olhos já não mais brilhavam quando o vento abria as janelas numa espécie de jogo de forças. Era capaz de sentir a dor de quem é despedaçado aos poucos, porque, afinal, não dói pouco perder o coração. Não pedia que ele a amasse, já só queria aprender a odiá-lo. E, mesmo assim, não parava de tocar.

domingo, 30 de junho de 2013

Noites de agora

foto de dear_happiness en 20/10/11 - Fotolog

Gostava tanto de te ter escrito no peito em sorrisos esboçados tão espontaneamente, de te trazer comigo em cada manhã de inverno que tão docemente se deixava passar por conversas mergulhadas em cafés às três da manhã. Eras céus desenhados pelo mar e borboletas vindas de não sei onde, rosas encarnadas de tanto amar e rouxinóis cansados de tanto me cantar amor aos ouvidos. Eras um pedaço de mim, aquele que eu mais gostava e sonhava nunca perder. Beijavas-me todo o corpo sempre que sorrias e ousavas brincar comigo num jogo quase tão enigmático quanto a Lua.
Mas, um dia, não mais foste primavera e deixaste-me mergulhada em lágrimas choradas em lençóis com o teu doce cheiro a mar mesmo sem lá teres estado. É estranho como tudo parecia tão perfeito no princípio e se transformou neste temido outono sem Lua. O quarto cheira aos cigarros que se acendem e aos fantasmas que me preenchem aos poucos. Soubesses tu o que eu dava para te ter... És-me a vida, o momento. Tenho saudades das noites em que adormecia feliz a amar-te. Agora choro pétalas de malmequer e sinto que já nem alma tenho. Afinal, se a minha alma eras tu, onde está ela agora?

sábado, 22 de junho de 2013

Talvez demasiado


Amas demasiado - uma vez disseram-lhe, num suspiro de quem já nada sente nem lhe dói as palavras que diz. Ela era uma primavera cantada, uma praia perdida, um céu que chorava versos às ondas do mar antes de ser dia. Ao cair da noite falava com ele do seu quarto, abria um livro e cantava-lhe em segredo perto da janela, num choro escondido. Diziam-lhe que levava as cantigas dos melros nos cabelos e, oh, o quanto ela voava sempre que lhe davam asas. Os grandes poetas eram o seu tórrido colo e os mil livros chorados por tantos escritores eram o céu em que voava. E era ele o céu que ela mais gostava, de um azul-celeste tão profundo..., o mais bonito que já vira. Dava-lhe os cem mares e as cigarras e as cantigas de amor e as mais belas rosas oferecidas na incerteza de um olhar. E pudesse ele saber as palavras que ela lhe escrevia e as vezes que o beijava quando era ainda nela que vivia. Mas o que ela mais gostava... Era quando ele lhe dava o luar sem sequer saber. E abraçava as estrelas num olhar que se afasta sempre que deixava as suas asas com ele. Amas demasiado - disse-lhe o céu em segredo.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Sem fôlego


Tinha o doce hábito de lhe escrever desde o dia em que se apaixonara por ele. A primavera começara mais cedo, assim como os suspiros de amor. Passeava pela cidade como quem tem as tantas tulipas de jardim como amigas e o por-do-sol parecia-lhe mais belo a cada dia que passava. O sol acordava-a com um suave toque nos cabelos e a lua deitava-se com ela no segredo de um sorriso que se esboçava quase inconscientemente todas as noites. 
Mas, certo dia, os melros terminaram as suas cantigas de sábado à tarde e os céus de angústia se encheram. Quase sem dar por nada, ela já mergulhava os cabelos escuros nos tantos versos que chorava. E era incapaz de falar, quase como se o mar lhe tivesse levado as palavras da alma. Oh, e o quanto ela gostava de escrever! Era letras em dias que não chovia e danças quando se sentia em casa. Mas ela amava-o demasiado e ele dissera-lhe que era poeta e possuidor de uns olhos tão belos que relembravam o mar e as estrelas. Doces olhos esses que a fizeram crer em todos os contos que a avó lhe contara e agora cair e tornar-se num só pedaço de alma quase vazio. Já não sentia nada, só Deus sabia quantas vezes ela ficara sem fôlego só naquela noite das tão aterrorizadoras lágrimas que chorara. Porque ela queria odiá-lo, mas de tanto o querer, amava-o sempre que o Sol se punha.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Espero por ti


Daquelas poucas vezes que me olhaste quase que te senti os lábios no rosto e agora que penso em ti quase que te consigo ouvir o coração. Pensei que estivéssemos prestes a escrever uma história, já estava eu de livro no colo e lábios entreabertos à tua espera... Em vão, não mais nasceram malmequeres no meu quarto nem mais a Lua me olhou da janela. Oh, e soubesses tu as vezes que me deixo ficar de lábios semicerrados à tua procura. E soubesses quantos poemas chorei todo o dia à espera que viesses. Porque eu era quase nada e tu eras quase tudo.