
Tudo o que se ouvia na cidade era o som do violino que tocava, no quarto que era quase mais vazio que os céus. Tinha os cabelos escuros e compridos e a subtileza com que estes lhe preenchiam os ombros tornavam-na um pedaço belo de jardim. Os seus grossos e enigmáticos lábios - de quem nunca é beijado pelo mar - davam-lhe uma elegância imperfeita que poucos compreendiam. Tocava sem cessar aos pardais há horas, fechava os olhos e, de quando em vez, chorava. Tinha medo de viver, porque viver agora somente a magoava. Sentia os ossos quebrarem-se-lhe sempre que dançava pela sala num suspiro ao implorar pela sua alma de volta. Mas ela não parecia parar de chorar... Tocava mais uma vez e o movimento dos seus braços era quase tão belo como o luar. A dor parecia movê-la e fazer com que ela não parasse de tocar até amanhecer. Não se sentia bem, queria desaparecer para onde os pássaros lhe beijassem os poemas que escrevia e pudesse chorar durante dias a fio. Talvez não fosse apenas uma simples rapariga, talvez fosse um sorriso transformado numa mágoa que parecia terminar só no Inferno. Era, agora, nada mais que um céu sombrio e tenebroso. A pele parecia-lhe mais pálida que o habitual ao espelho e os seus olhos já não mais brilhavam quando o vento abria as janelas numa espécie de jogo de forças. Era capaz de sentir a dor de quem é despedaçado aos poucos, porque, afinal, não dói pouco perder o coração. Não pedia que ele a amasse, já só queria aprender a odiá-lo. E, mesmo assim, não parava de tocar.

