domingo, 7 de abril de 2013

Noite de ilusões

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Rasgo cartas molhadas
Que escrevo com dor ao deitar,
Colho discos de música
Que outrora amara dançar.

Abre-se-me o peito na noite
Cansada do teu nome chamar,
Sonhos afundados no rio
De alma exausta de gritar.

Sorrio quando apareces,
Choro sempre que te vais
Como quem espera um beijo
Ou, quem sabe, até algo mais.

Retratos desenhados de inverno
Por mim, até não muito mal,
Teus lábios chorados a carvão
O que me és tu afinal?

Falo como se a meu lado estivesses
De alma caída e nua,
Talvez queira estar só contigo
E dançar; eu, tu e a Lua.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Quase manhã de inverno

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O amor era-lhe fugidio e, quase num tom sedutor, dizia que sonhava que um dia alguém a amasse. Já não mais sabia o que queria; se pensar nele, se levá-lo do pensamento ao sabor das fortes ondas do mar. Era uma manhã de março que mais parecia invernil, chovera durante toda a noite e não tardava até chover mais um pouco. Embutida naquele ambiente, cerrava os olhos e era guiada pela simplicidade do rebentar das ondas. Perscrutava o mar e, na verdade, era do que mais precisava naquela tão gélida manhã. O facto de o mar a tranquilizar era a única certeza que possuía.
Bebia uma água gaseificada ao passo que o vento por ela passava e, de quando em vez, esfregava as mãos uma contra a outra na esperança de que a mínima energia calorífica se deixasse aparecer. Tinha os pés gelados de quem corre na neve sem cessar e o coração perdido nas palmas das mãos de quem sofre por entre gritos mudos. Esta noite tinha sonhado com ele, mas não o contara a ninguém, pois presumira que se o fizesse se pusessem a inventar histórias como em tantas outras vezes. Era agora uma gota de água caída e um vestígio de uma tão-somente carta molhada deixada voar em tempos de inverno. Incapaz de desvendar o que escondia o seu pobre e sofredor coração, ali permanecia, na esperança de que o mar lhe trouxesse uma única resposta. Era quem mais cria no mar e sabia que quando todos se fossem embora e deixassem a praia finalmente deserta, este lhe aquentaria a alma. E era tudo o que mais queria.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Até o Sol nascer

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Passava noites de olhar fixo nos livros que contavam os mais belos contos de amor e de coração preso por um só fio. Tinha a cicatriz no peito de um corpo possuidor de um coração débil nunca antes amado de verdade. Os cabelos escuros e compridos contavam mil e uma histórias de rua e os lábios rosados e tão bem delineados escondiam segredos de romances lidos e nunca caídos em esquecimento. Esta noite esperava pela Lua, como em tantas outras o fazia, e escrevia poesia ao som da chuva e ventania incessante que se instalara de repente. É difícil desvendar os maiores segredos de um coração, saber o que este sente sempre que bombeia sangue para todas as partes do corpo. Ela não sabia o que sentia e perdia-se em caminhos feitos de rosas mórbidas e desfeitas na melancolia de um coração nunca admirado por ninguém. Pensava nele sem cessar, mas custava-lhe admitir que sonhava que lhe voasse até aos lençóis uma doce mensagem por ele escrita na leveza de uma folha de carvalho. E esperou pela Lua até o Sol nascer, mas esta não chegou a aparecer... Não esta noite.

domingo, 31 de março de 2013

Sentimento que persiste

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Ouvia-se o cantarolar das cigarras ao passo que se pressentia o sussurrar das folhas em toda a cidade, a Lua atingia o auge no céu enquanto corações dóceis sem dono, ainda acordados, aguardavam que esta lhes segredasse um vocábulo de alento.
Ali estava eu, sentada no imenso banco de jardim, quase adormecida com a simplicidade e perfeição das infindáveis estrelas. Os olhos captaram breves laivos de luar e, por momentos, interroguei-me se ele sonharia ainda comigo. Deixei-me inundar por pedaços de noites de amor memorizadas, beijos trocados no segredo de um olhar e palavras outrora proferidas por lábios doces de poeta. Tudo era passado até então, mas estar recostada no banco onde nos costumávamos abraçar durante horas fez-me recordar a sua alma. Era fácil abstrair-me de todo este sentimento quando me encontrava fora da cidade, mas as letras do seu nome permaneciam escritas no meu coração e não pareciam querer de lá mais sair. O difícil era decidir se havia de não pensar mais nele ou se, por outro lado, havia de amá-lo para sempre.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Morcegos de partida

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Passava dias e noites a escrever para os belos malmequeres do jardim. Pouco falava e, quando lhe imploravam que o fizesse, cantava. Tocava violino por entre marés da dor de quem procura uma alma longínqua nos dias mais lúgubres como eram aqueles pelos quais passava. Quando compunha melodias de angústia e cansaço quase que sentia borboletas sobrevoarem-lhe a cabeça. Já não mais gostava de falar, só o fazia com os melros que passavam tardes a passear e, por conseguinte, a pipilar pelo seu jardim fora. Cor de ouro, dizia quando lhe perguntavam qual a cor dos seus cabelos. Adorava o mar e dizia-se pelas ruas da cidade que quando admiravam minuciosamente os seus olhos era possível senti-lo. 
A tia havia partido há meses e ela sentia morcegos pousarem-se-lhe no pescoço desde a noite em que ela partira. Dormia amedrontada e chorava rios de saudade quando nela pensava. Voavam-lhe os cabelos, era despida pela Lua e deixava a alma cair sempre que em memórias de outrora se deixava tropeçar. E os céus choravam com ela, enquanto a vislumbravam  dolorosamente perder-se de si.