sexta-feira, 29 de março de 2013

Morcegos de partida

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Passava dias e noites a escrever para os belos malmequeres do jardim. Pouco falava e, quando lhe imploravam que o fizesse, cantava. Tocava violino por entre marés da dor de quem procura uma alma longínqua nos dias mais lúgubres como eram aqueles pelos quais passava. Quando compunha melodias de angústia e cansaço quase que sentia borboletas sobrevoarem-lhe a cabeça. Já não mais gostava de falar, só o fazia com os melros que passavam tardes a passear e, por conseguinte, a pipilar pelo seu jardim fora. Cor de ouro, dizia quando lhe perguntavam qual a cor dos seus cabelos. Adorava o mar e dizia-se pelas ruas da cidade que quando admiravam minuciosamente os seus olhos era possível senti-lo. 
A tia havia partido há meses e ela sentia morcegos pousarem-se-lhe no pescoço desde a noite em que ela partira. Dormia amedrontada e chorava rios de saudade quando nela pensava. Voavam-lhe os cabelos, era despida pela Lua e deixava a alma cair sempre que em memórias de outrora se deixava tropeçar. E os céus choravam com ela, enquanto a vislumbravam  dolorosamente perder-se de si.

domingo, 24 de março de 2013

Um amanhecer de ternura

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Dizia que precisava de estar sozinha em tons fatigados de ternura e eu dava-lhe o espaço que me implorava que lhe desse. Sabia do que precisava, mas era incapaz de a ver sofrer apenas com os céus como alento. Quando chorava, a minha alma caía e quando dizia não aguentar mais, eu deixava-me desabar com ela. Tinha uns olhos grandes e expressivos, capazes de contar longos poemas entre as estrelas e a Lua quando os admirávamos ao pormenor. E eu não sabia se a havia de deixar ali a falar com a Lua se havia de voltar para a ouvir e abraçar nos períodos em que tudo o que se ouvia era a nossa calorosa respiração. Eu sei que quando ela me diz para ficar longe é quando mais de mim precisa e é certo e sabido que não a vou deixar sofrer sozinha. O coração doía-me e os olhos chamejavam da agonia que era vê-la mergulhar a alma em rios de saudade. Soltei o cabelo e apreciei o calor que se instalara na cidade naquele momento, olhei o céu, agora em tons rosados, e deixei-me voar ao sabor das folhas que não cessavam em andar aos rodopios. Ainda pensei em passear os dedos pelo piano na tentativa de compor algo que a trouxesse de volta ao meu colo gelado, mas já tardara e toda a rua dormia em silêncios longe de poderem ser quebrados. Vislumbrei o Sol nascer ao longe e, numa cantiga breve de um melro que se instalara a meu lado, entendi que havia de correr para ela. Calcei as botas sujas de   saudade e corri o mais rápido que pude, abracei-a na fervura de uma amizade infindável e quase vi um sorriso esboçar-se. Não deixarei que sofras - disse-lhe num suspiro soluçado ao ouvido. E, nesse mesmo nascer do dia, o melro cantou-me que tinha a melhor amiga de sempre. Eu assenti com a cabeça, como quem ouve algo já sabido e decorado, e abracei-a novamente. E sorrimos.

sábado, 23 de março de 2013

Amizades de inverno


Ela contara-me que se sentia só, um dia, num dos tantos luares frios de inverno. Dissera-me que se via ao espelho como uma única pétala de rosa deixada cair, um pedaço de chão pisado por ninguém. Sinto-me vazia, dissera-me quando os soluços cessaram finalmente. Não estás sozinha, respondi, dirigindo-lhe o olhar em tons de ternura. De quando em quando penteava-lhe os lustrosos e rútilos cabelos de menina, como quem aconchega um coração com uma tão-somente chávena de chá. Pedi-lhe que conversasse comigo, mas rapidamente entendi que tudo o que ela mais queria era escutar a interminável cantiga das cigarras que a embalava em cigarros de noites infindáveis de verão. Eu sabia que a fazia sentir-se melhor, então abraçava-a e permanecia em silêncio durante longos períodos de tempo. Quando a observei minunciosamente, na noite, vi uma alma débil e despida implorando por companhia num suspiro noturno quase inaudível. Ali permanecemos sentadas nos ramos baixos de um antigo carvalho-branco, eu na esperança de a ver renascer e ela a chorar nos meus braços. O.

sexta-feira, 22 de março de 2013

O rio

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Ali permanecias sentado, quase adormecido com o pipilar das aves e o maravilhoso movimento das calmas águas do rio. Estava um dia gelado e havias acabado de fumar um cigarro e trazido a guitarra para o teu acolhedor colo. Tocavas numa maresia discreta, num olhar de poeta, enquanto vislumbravas os barcos atracarem. O som dos teus dedos a tocar as cordas da guitarra ouvia-se nos arredores e fazia-se sentir até à mais longínqua casa daquele pedaço de rua. Inspiravas-te com o bater das asas das gaivotas e abrias o coração ao rio sempre que vias um peixe que se deixava mostrar aos calorosos observadores da cidade. Estavas sentado havia horas, sempre na mesma posição e de queixo caído com a beleza da Natureza naquelas manhãs frias em que poucos tinham a coragem de sair à rua. E tocavas, tocavas até despertar a cidade numa melodia bem-disposta de quem ama um rio com a alma. Eu ali permaneci, cúmplice dos teus olhos e apreciadora da tua música. Cerrei os olhos num instante e quase que senti o calor dos teus dedos tocarem-me a alma.

terça-feira, 19 de março de 2013

Prometo


Hoje és inverno e lágrimas de borboletas deixadas cair na infinidade de uma noite. Parece mentira, ainda - dizias-me com os teus olhos enormes e escuros de quem esconde um mar de dor. Trazias um ar cansado e falavas pouco, somente quando te questionava. Liguei o rádio para ver se sorrias, em vão. Cantavas poemas num só pestanejar e levavas-me contigo sempre que optavas por não dizer nada. Vai ficar tudo bem, acredita em mim. Tens uma estrela a olhar por ti todos os dias e, oh, não verbalizes que não fizeste tudo o que devias ter feito, porque és maravilhosa. Espero que nunca te aconteça nada - dizias-me num suspiro. E eu espero que a tua dor termine hoje - respondia-te. És uma melodia de bondade, um pedaço de mel e, agora, um suspiro triste de inverno. Adormeceste e eu rezei para que ficasses bem, pois era tudo o que eu mais queria. Dói-me saber que estás nesse estado sombrio e lastimoso e que não pude contrariar nada do que se sucedeu. Tenho os olhos inchados de imaginar a tua agonia e de chorar noites sem fim. E a Lua segredou-me que a pequena estava a adorar-te no seu tórrido colo. Vais voltar a sorrir. Eu prometo.