
Dizia que precisava de estar sozinha em tons fatigados de ternura e eu dava-lhe o espaço que me implorava que lhe desse. Sabia do que precisava, mas era incapaz de a ver sofrer apenas com os céus como alento. Quando chorava, a minha alma caía e quando dizia não aguentar mais, eu deixava-me desabar com ela. Tinha uns olhos grandes e expressivos, capazes de contar longos poemas entre as estrelas e a Lua quando os admirávamos ao pormenor. E eu não sabia se a havia de deixar ali a falar com a Lua se havia de voltar para a ouvir e abraçar nos períodos em que tudo o que se ouvia era a nossa calorosa respiração. Eu sei que quando ela me diz para ficar longe é quando mais de mim precisa e é certo e sabido que não a vou deixar sofrer sozinha. O coração doía-me e os olhos chamejavam da agonia que era vê-la mergulhar a alma em rios de saudade. Soltei o cabelo e apreciei o calor que se instalara na cidade naquele momento, olhei o céu, agora em tons rosados, e deixei-me voar ao sabor das folhas que não cessavam em andar aos rodopios. Ainda pensei em passear os dedos pelo piano na tentativa de compor algo que a trouxesse de volta ao meu colo gelado, mas já tardara e toda a rua dormia em silêncios longe de poderem ser quebrados. Vislumbrei o Sol nascer ao longe e, numa cantiga breve de um melro que se instalara a meu lado, entendi que havia de correr para ela. Calcei as botas sujas de saudade e corri o mais rápido que pude, abracei-a na fervura de uma amizade infindável e quase vi um sorriso esboçar-se. Não deixarei que sofras - disse-lhe num suspiro soluçado ao ouvido. E, nesse mesmo nascer do dia, o melro cantou-me que tinha a melhor amiga de sempre. Eu assenti com a cabeça, como quem ouve algo já sabido e decorado, e abracei-a novamente. E sorrimos.



