domingo, 24 de março de 2013

Um amanhecer de ternura

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Dizia que precisava de estar sozinha em tons fatigados de ternura e eu dava-lhe o espaço que me implorava que lhe desse. Sabia do que precisava, mas era incapaz de a ver sofrer apenas com os céus como alento. Quando chorava, a minha alma caía e quando dizia não aguentar mais, eu deixava-me desabar com ela. Tinha uns olhos grandes e expressivos, capazes de contar longos poemas entre as estrelas e a Lua quando os admirávamos ao pormenor. E eu não sabia se a havia de deixar ali a falar com a Lua se havia de voltar para a ouvir e abraçar nos períodos em que tudo o que se ouvia era a nossa calorosa respiração. Eu sei que quando ela me diz para ficar longe é quando mais de mim precisa e é certo e sabido que não a vou deixar sofrer sozinha. O coração doía-me e os olhos chamejavam da agonia que era vê-la mergulhar a alma em rios de saudade. Soltei o cabelo e apreciei o calor que se instalara na cidade naquele momento, olhei o céu, agora em tons rosados, e deixei-me voar ao sabor das folhas que não cessavam em andar aos rodopios. Ainda pensei em passear os dedos pelo piano na tentativa de compor algo que a trouxesse de volta ao meu colo gelado, mas já tardara e toda a rua dormia em silêncios longe de poderem ser quebrados. Vislumbrei o Sol nascer ao longe e, numa cantiga breve de um melro que se instalara a meu lado, entendi que havia de correr para ela. Calcei as botas sujas de   saudade e corri o mais rápido que pude, abracei-a na fervura de uma amizade infindável e quase vi um sorriso esboçar-se. Não deixarei que sofras - disse-lhe num suspiro soluçado ao ouvido. E, nesse mesmo nascer do dia, o melro cantou-me que tinha a melhor amiga de sempre. Eu assenti com a cabeça, como quem ouve algo já sabido e decorado, e abracei-a novamente. E sorrimos.

sábado, 23 de março de 2013

Amizades de inverno


Ela contara-me que se sentia só, um dia, num dos tantos luares frios de inverno. Dissera-me que se via ao espelho como uma única pétala de rosa deixada cair, um pedaço de chão pisado por ninguém. Sinto-me vazia, dissera-me quando os soluços cessaram finalmente. Não estás sozinha, respondi, dirigindo-lhe o olhar em tons de ternura. De quando em quando penteava-lhe os lustrosos e rútilos cabelos de menina, como quem aconchega um coração com uma tão-somente chávena de chá. Pedi-lhe que conversasse comigo, mas rapidamente entendi que tudo o que ela mais queria era escutar a interminável cantiga das cigarras que a embalava em cigarros de noites infindáveis de verão. Eu sabia que a fazia sentir-se melhor, então abraçava-a e permanecia em silêncio durante longos períodos de tempo. Quando a observei minunciosamente, na noite, vi uma alma débil e despida implorando por companhia num suspiro noturno quase inaudível. Ali permanecemos sentadas nos ramos baixos de um antigo carvalho-branco, eu na esperança de a ver renascer e ela a chorar nos meus braços. O.

sexta-feira, 22 de março de 2013

O rio

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Ali permanecias sentado, quase adormecido com o pipilar das aves e o maravilhoso movimento das calmas águas do rio. Estava um dia gelado e havias acabado de fumar um cigarro e trazido a guitarra para o teu acolhedor colo. Tocavas numa maresia discreta, num olhar de poeta, enquanto vislumbravas os barcos atracarem. O som dos teus dedos a tocar as cordas da guitarra ouvia-se nos arredores e fazia-se sentir até à mais longínqua casa daquele pedaço de rua. Inspiravas-te com o bater das asas das gaivotas e abrias o coração ao rio sempre que vias um peixe que se deixava mostrar aos calorosos observadores da cidade. Estavas sentado havia horas, sempre na mesma posição e de queixo caído com a beleza da Natureza naquelas manhãs frias em que poucos tinham a coragem de sair à rua. E tocavas, tocavas até despertar a cidade numa melodia bem-disposta de quem ama um rio com a alma. Eu ali permaneci, cúmplice dos teus olhos e apreciadora da tua música. Cerrei os olhos num instante e quase que senti o calor dos teus dedos tocarem-me a alma.

terça-feira, 19 de março de 2013

Prometo


Hoje és inverno e lágrimas de borboletas deixadas cair na infinidade de uma noite. Parece mentira, ainda - dizias-me com os teus olhos enormes e escuros de quem esconde um mar de dor. Trazias um ar cansado e falavas pouco, somente quando te questionava. Liguei o rádio para ver se sorrias, em vão. Cantavas poemas num só pestanejar e levavas-me contigo sempre que optavas por não dizer nada. Vai ficar tudo bem, acredita em mim. Tens uma estrela a olhar por ti todos os dias e, oh, não verbalizes que não fizeste tudo o que devias ter feito, porque és maravilhosa. Espero que nunca te aconteça nada - dizias-me num suspiro. E eu espero que a tua dor termine hoje - respondia-te. És uma melodia de bondade, um pedaço de mel e, agora, um suspiro triste de inverno. Adormeceste e eu rezei para que ficasses bem, pois era tudo o que eu mais queria. Dói-me saber que estás nesse estado sombrio e lastimoso e que não pude contrariar nada do que se sucedeu. Tenho os olhos inchados de imaginar a tua agonia e de chorar noites sem fim. E a Lua segredou-me que a pequena estava a adorar-te no seu tórrido colo. Vais voltar a sorrir. Eu prometo.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Caminhadas de amor


Nunca tínhamos conversando tanto nem murmurado tantos pássaros ao ouvido. Sentia-me bem, realizada. Tinhas as cores da primavera e a doçura da época natalícia; mesmo que essa já tivesse passado há muito, tu insistias em conservar esse espírito. Andavas na leveza de uma brisa de inverno e aproximavas-te com olhos de amor numa breve expressão de afeto. Dá-me a tua mão, vamos passear - dizias-me e levavas-me sem eu dizer sequer uma palavra. E voavam-me borboletas pela alma e fazia pliers pela calçada e brincava às escondidas com as gaivotas. Tinhas-me nas tuas mãos como os céus têm as estrelas e eu apreciava cada carícia que davas ao meu quebradiço coração enquanto lias. Estávamos felizes, loucos de alegria, na verdade. Porque um coração outrora magoado ama sempre mais do que qualquer outro que nunca tenha pisado os jardins do sofrimento. Éramos mar, cigarros nunca apagados e duas mãos entrelaçadas para sempre. Foi no fim deste passeio que te disse o quanto te amava num sussurro poético ao deitar. E cantaste para mim.