terça-feira, 19 de março de 2013

Prometo


Hoje és inverno e lágrimas de borboletas deixadas cair na infinidade de uma noite. Parece mentira, ainda - dizias-me com os teus olhos enormes e escuros de quem esconde um mar de dor. Trazias um ar cansado e falavas pouco, somente quando te questionava. Liguei o rádio para ver se sorrias, em vão. Cantavas poemas num só pestanejar e levavas-me contigo sempre que optavas por não dizer nada. Vai ficar tudo bem, acredita em mim. Tens uma estrela a olhar por ti todos os dias e, oh, não verbalizes que não fizeste tudo o que devias ter feito, porque és maravilhosa. Espero que nunca te aconteça nada - dizias-me num suspiro. E eu espero que a tua dor termine hoje - respondia-te. És uma melodia de bondade, um pedaço de mel e, agora, um suspiro triste de inverno. Adormeceste e eu rezei para que ficasses bem, pois era tudo o que eu mais queria. Dói-me saber que estás nesse estado sombrio e lastimoso e que não pude contrariar nada do que se sucedeu. Tenho os olhos inchados de imaginar a tua agonia e de chorar noites sem fim. E a Lua segredou-me que a pequena estava a adorar-te no seu tórrido colo. Vais voltar a sorrir. Eu prometo.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Caminhadas de amor


Nunca tínhamos conversando tanto nem murmurado tantos pássaros ao ouvido. Sentia-me bem, realizada. Tinhas as cores da primavera e a doçura da época natalícia; mesmo que essa já tivesse passado há muito, tu insistias em conservar esse espírito. Andavas na leveza de uma brisa de inverno e aproximavas-te com olhos de amor numa breve expressão de afeto. Dá-me a tua mão, vamos passear - dizias-me e levavas-me sem eu dizer sequer uma palavra. E voavam-me borboletas pela alma e fazia pliers pela calçada e brincava às escondidas com as gaivotas. Tinhas-me nas tuas mãos como os céus têm as estrelas e eu apreciava cada carícia que davas ao meu quebradiço coração enquanto lias. Estávamos felizes, loucos de alegria, na verdade. Porque um coração outrora magoado ama sempre mais do que qualquer outro que nunca tenha pisado os jardins do sofrimento. Éramos mar, cigarros nunca apagados e duas mãos entrelaçadas para sempre. Foi no fim deste passeio que te disse o quanto te amava num sussurro poético ao deitar. E cantaste para mim.

domingo, 17 de março de 2013

Toda a noite


Deitaste-te a meu lado e inalaste-me durante toda a noite. Não havia velas nem champagne como nos filmes, muito menos morangos que eu detestava. Era inverno e estávamos ambos doidos de frigidez, eu mais que tu, talvez. Tinha aquele malmequer no cabelo que me puseras naquela tarde no jardim de tua casa. Estás linda - dizias, enquanto me beijavas minunciosamente a cara e o pescoço. Eras a minha casa, o meu jardim de túlipas e o mar que ansiava sempre por conhecer cada vez mais. O dia não estava nada alegre, mas a noite trazia-nos aquele prazer e mistério tão característico das noites de inverno. Li-te o olhar como quem escreve poesia e dancei sobre o teu corpo, e beijei-te, mais tarde, enquanto dormias. A Lua estava cheia e o céu negrume e repleto de estrelas. Nunca soube identificar a Estrela Polar - confessava-me aos céus. Passei toda a noite acordada a observar o teu corpo despido e apaixonante como um daqueles livros de romance que a mãe lia. Passaste a noite acordada? - questionaste-me, pouco depois de ver a cor dos teus olhos. Prefiro ver-te a meu lado do que sonhar contigo - disse-te. E dançámos mais uma vez.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Sem casa

Tumblr_mjnsdayiej1r0o3jvo1_500_large

Na varanda a falar com a Lua; era só mais um de tantos dias. Perdia-me em caminhos nunca antes percorridos e despia-me em cada palavra que sussurrava na noite. Imaginei-te sentado a meu lado em tons primaveris e a cheirar a flores; era bom demais. Rasguei a folha de carvalho escrita de memórias, lágrimas e poemas cantados pelo pai e decorados por mim. A dor não era suportável e, por momentos, imaginei-me a dançar contigo e a cantar-te ao ouvido. Vi-nos a correr pelo bosque que sempre sonhaste conhecer e pela floresta que tanto me amedrontava, sempre de mãos entrelaçadas e de corações abraçados. Tentei falar, mas não tinha voz, e foi aí que toquei para ti. Entrei e despi o casaco que me ofereceras, em jeito de remover o teu cheiro a ternura dos meus braços. E toquei até adormecer, até à Lua se perder nos meus dedos. Mas sem nunca me perder de ti.

terça-feira, 12 de março de 2013

Maldito sentimentalismo

Lt3-beautiful-blossom-floral-favim.com-653016_large

Voei ao sabor do vento e caí no preciso momento em que se ouviu trovejar. Chamei por ti mas não apareceste, até te cumprimentei mas não obtive resposta alguma. Encostei-me aonde pude e chorei como quem não o faz por querer, mas por alívio. Sentei-me sobre o chão molhado, enquanto caminhavas rumo a não sei onde com o teu tão característico ar sombrio, incógnito e misterioso. Não falei, não o quis fazer, e ali permaneci a vislumbrar a interminável dança das aves em busca de alimento. Chovia e eu tinha a camisa branca encharcada, tinha levado a que mais gostavas só para que me visses. Estava um ar gelado e as borboletas murmuravam-me palavras de força ao ouvido. Refugiei-me atrás dos meus cabelos e chorei enquanto era certo que ninguém se avistava. Estava escuro e já tinhas ido. Talvez eu sinta demasiado as coisas e seja mesmo esse o problema: o meu maldito sentimentalismo. Não quis mais ver-te e tirei todos os livros da mala como quem remove um homem do coração. Pedi à Lua que me ajudasse, num gesto de quem o Céu tem por amigo. Subitamente, correste na minha direção e sentaste-te a meu lado, eu deitei-me sobre ti e disseste-me - Não estás nada bem - eu implorei para que me abraçasses e tu fizeste-o mesmo no compasso de tempo que eu idealizara. Sobre ti, cerrei os olhos e adormeci a horas tardias. Foi a primeira vez que chorei por ti.