domingo, 17 de março de 2013

Toda a noite


Deitaste-te a meu lado e inalaste-me durante toda a noite. Não havia velas nem champagne como nos filmes, muito menos morangos que eu detestava. Era inverno e estávamos ambos doidos de frigidez, eu mais que tu, talvez. Tinha aquele malmequer no cabelo que me puseras naquela tarde no jardim de tua casa. Estás linda - dizias, enquanto me beijavas minunciosamente a cara e o pescoço. Eras a minha casa, o meu jardim de túlipas e o mar que ansiava sempre por conhecer cada vez mais. O dia não estava nada alegre, mas a noite trazia-nos aquele prazer e mistério tão característico das noites de inverno. Li-te o olhar como quem escreve poesia e dancei sobre o teu corpo, e beijei-te, mais tarde, enquanto dormias. A Lua estava cheia e o céu negrume e repleto de estrelas. Nunca soube identificar a Estrela Polar - confessava-me aos céus. Passei toda a noite acordada a observar o teu corpo despido e apaixonante como um daqueles livros de romance que a mãe lia. Passaste a noite acordada? - questionaste-me, pouco depois de ver a cor dos teus olhos. Prefiro ver-te a meu lado do que sonhar contigo - disse-te. E dançámos mais uma vez.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Sem casa

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Na varanda a falar com a Lua; era só mais um de tantos dias. Perdia-me em caminhos nunca antes percorridos e despia-me em cada palavra que sussurrava na noite. Imaginei-te sentado a meu lado em tons primaveris e a cheirar a flores; era bom demais. Rasguei a folha de carvalho escrita de memórias, lágrimas e poemas cantados pelo pai e decorados por mim. A dor não era suportável e, por momentos, imaginei-me a dançar contigo e a cantar-te ao ouvido. Vi-nos a correr pelo bosque que sempre sonhaste conhecer e pela floresta que tanto me amedrontava, sempre de mãos entrelaçadas e de corações abraçados. Tentei falar, mas não tinha voz, e foi aí que toquei para ti. Entrei e despi o casaco que me ofereceras, em jeito de remover o teu cheiro a ternura dos meus braços. E toquei até adormecer, até à Lua se perder nos meus dedos. Mas sem nunca me perder de ti.

terça-feira, 12 de março de 2013

Maldito sentimentalismo

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Voei ao sabor do vento e caí no preciso momento em que se ouviu trovejar. Chamei por ti mas não apareceste, até te cumprimentei mas não obtive resposta alguma. Encostei-me aonde pude e chorei como quem não o faz por querer, mas por alívio. Sentei-me sobre o chão molhado, enquanto caminhavas rumo a não sei onde com o teu tão característico ar sombrio, incógnito e misterioso. Não falei, não o quis fazer, e ali permaneci a vislumbrar a interminável dança das aves em busca de alimento. Chovia e eu tinha a camisa branca encharcada, tinha levado a que mais gostavas só para que me visses. Estava um ar gelado e as borboletas murmuravam-me palavras de força ao ouvido. Refugiei-me atrás dos meus cabelos e chorei enquanto era certo que ninguém se avistava. Estava escuro e já tinhas ido. Talvez eu sinta demasiado as coisas e seja mesmo esse o problema: o meu maldito sentimentalismo. Não quis mais ver-te e tirei todos os livros da mala como quem remove um homem do coração. Pedi à Lua que me ajudasse, num gesto de quem o Céu tem por amigo. Subitamente, correste na minha direção e sentaste-te a meu lado, eu deitei-me sobre ti e disseste-me - Não estás nada bem - eu implorei para que me abraçasses e tu fizeste-o mesmo no compasso de tempo que eu idealizara. Sobre ti, cerrei os olhos e adormeci a horas tardias. Foi a primeira vez que chorei por ti.

domingo, 10 de março de 2013

Melodia

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Não sei o que sinto nem, tão pouco, a cor do meu coração. Sinto-me quente como não me sentia há séculos e repleta de alacridade que me preenche. Corpo e alma. Há dias, quando olhava nesta direção via nuvens sombrias e pássaros a cantarolar o ruído da tristeza, mas, agora, já só vejo doces magnólias e oiço o maravilhoso pipilar das aves. Tudo mudou. Aí vem ele, trazendo consigo uma expressão de felicidade capaz de ser sentida do outro lado da cidade e os seus atacadores do pé esquerdo desabotoados - o habitual. Corri na sua direção e os cabelos esvoaçaram-me para as costas, resultado da força do vento que se instalara. Ele olhou-me como quem canta poesia num olhar e eu dei-lhe um beijo no ombro descoberto. Abraçou-me tocando-me as costas e beijou-me até não poder mais. Sentámo-nos no banco de jardim, por fim, cansados de correr como duas crianças acabadas de sair da escola e doidas pela hora do lanche. Deitei-me sobre o seu peito e ali permaneci, a ouvir a melodia das cigarras até anoitecer. E, por alma do destino, a sinfonia dos nossos corações.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Nem uma palavra

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Um arrepio no peito como mil pássaros que voam num breve esvoaço de frescura e um sorriso que se brota, involuntariamente, vindo de não sei onde; aí vinhas. Ouvia o A Thousand Years enquanto chegavas, aquela música que já tanto me fez chorar, e passeava-me em ti. Estranho, não é? Chovia e não havia já vestígios de Sol há muito e, quando tinha frio, lembrava-me sempre de ti. Cumprimentaste-me num toque de quem procura um coração e eu olhei-te como quem entrega, docilmente, a alma. Sentaste-te a meu lado e eu inalei-te, acabando por render-me. As folhas caíam a uma velocidade indeterminável e o céu escurecera bastante. Implorava por um pedaço de amor teu, por uma pétala de malmequer caída ou até mesmo por um poema proferido num suspiro ao ouvido. Ouvia agora o Give me Love e era tudo o que sentia quando os meus olhos caíam sobre ti. 
Tenho medo de amar, de cair num oceano sem fundo e de desaparecer, mais uma vez. Uma folha tocou-nos ao cair e tu falaste-me na doçura e alento de um olhar. Eu sorri-te, sem nunca dizer nada. Mesmo sabendo que eras tudo o que eu mais queria.